segunda-feira, 14 de julho de 2014

Porque devemos ler Platão no Ensino Médio

     Quando li Nietzsche pela vez primeira e vi, pela boca de comentadores, que esse filósofo teceu duras críticas à metafísica de Platão, resolvi buscar nas fontes o que o velho grego da Alegoria da Caverna havia dito de tão absurdo. Eis que me encontro com uma cópia de "A República" em mãos. Não obstante, a minha primeira leitura desse clássico da filosofia foi um desastre. A cada passagem em que Sócrates discursava apaixonadamente sobre o universo da justiça, da pólis e das formas eu identificava erros que não eram bem erros que eu identificava. Explicando melhor, estava a ler Platão sobre os olhos de Nietzsche de forma quase que forçada. Com esses preconceitos, terminei a última página sem entender de fato o que Platão queria dizer no livro inteiro.

     A Alegoria da Caverna é, deveras, uma das passagens mais reproduzidas d'A República e, pior, mal reproduzida! Não me permitia compreender o que significava realmente o Mundo das Formas e, descontextualizadamente, fazia um juízo de valor sobre cada linha da obra com base na interpretação contextualizada de Nietzsche. Esse é um dos pontos onde muitos erram ao narrar o Mito da Caverna, quando querem entendê-lo somente pelos olhos dos outros.

     Já despido dos preconceitos que as leituras atropeladas de Nietzsche me imputaram, resolvi revisitar Platão. E que maravilha! Experimentei realmente o "maravilhar" filosófico de Platão quando compreendi que há muito mais nesse filósofo do que um grosseiro desprezo ao mundo sensível em detrimento do mundo inteligível. Ora, depois eu descobri que grosseiro mesmo é só querer ficar boiando no sensível.

     Não só n'A República, mas em todos os diálogos platônicos, há uma diversidade de assuntos tratados em um só texto. Podemos aprender, com a ajuda de um bom professor, muito de Lógica em Platão; muito de metafísica, muito de literatura e muito de estética. Ler Platão, no Ensino Médio mesmo, nos ajudaria a entender, também, o que é uma teoria. Ora, quantas vezes ouço a pergunta “para quê me serve tal teoria?”. Platão nos ensina. Se uma árvore na caatinga é diversa e ao mesmo tempo similar a uma árvore no cerrado, deve haver uma árvore ideal, em algum lugar fora do sensível, a qual serve de modelo para todas as árvores. Isso é, portanto, uma Forma (ou Ideia, em uma tradução menos acurada). Teorizar é, então, operar com as Formas através do intelecto. É identificar a Realidade.

     Lendo Platão no Ensino Médio, evitaríamos chegar no primeiro semestre do curso de Engenharia, por exemplo, e perguntarmos enfurecidos "para quê vai me servir essa cadeira de cálculo na prática?". Ora, mas com professores ganhando dez reais a hora/aula, como podemos entender Platão? Melhor, com professores ganhando dez reais a hora/aula, como podemos entender?



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Essência aniquilada – O Ser em "Angústia"

      Angústia não é uma das obras mais conhecidas do ficcionista Graciliano Ramos, muito menos é uma das mais apresentadas pelos professores de Ensino Médio a seus alunos de Literatura. Por destoar do estilo característico que fez Graciliano ganhar o epíteto de “uma faca só lâmina” - dado por João Cabral -, podemos, de certa forma, entender o porquê de tão rica obra não ser tão bem apresentada no ensino básico como o é Vidas Secas, por exemplo.

      Enquanto que neste livro, podemos dizer dela “um conjunto de narrativas orgânicas, mas autônomas”, sentimos a presença do estilo tão autoral, tal como a prosa sóbria, pouco adornada de adjetivos e com objetividade de faca-só-lâmina, em Angústia encontramos o inverso. Não se acha nesse texto a linguagem objetiva e semi-referencial típica do autor. Vemo-nos, na verdade, diante de uma narrativa elaborada pela voz subjetiva de Luís da Silva, a qual distorce o cenário dado à própria lente personalíssima que aplica à descrição.

      Angústia, portanto, não pode representar um protótipo de obra graciliânica, uma vez que não apresenta as notas características para tal. Só que o que quero tratar nesses apontamentos não é a relação de Angústia com o conjunto da obra de Graciliano, e sim o que ela pode nos dizer respeito a nós mesmos como gente-no-mundo e como seres. Afinal, muito nos tem a dizer o romance sobre isso.

      A estória é narrada em primeira pessoa por Luís da Silva, herdeiro da decadente aristocracia rural pós-império. O fio narrativo não é linear. A trama primária (macronarrativa) puxa subnarrativas. A primeira esboça a medíocre vida de Luís como funcionário público em Maceió, a segunda, narrada de forma esparsa, transita entre a infância vivida na fazenda decadente da família e sua vida andarilha antes do emprego público. Enquanto a macronarrativa é traçada de forma relativamente linear, as micronarrativas são espalhadas na linha da trama a ponto de formar uma concha de retalhos que embaralha a estória contada (passado – pretérito perfeito) e as estórias lembradas (passado do passado – pretérito mais-que-perfeito). Além disso, as matérias e as cenas narradas são distorcidas pela própria subjetividade do narrador.
 
      O objeto que move a trama principal é Marina: filha dos vizinhos de Luís e mulher pela qual se apaixona. O objeto que move as tramas secundárias é o fracasso, ou (poderíamos dizer?) a falta de essência ao existir-aí de Luís. Ora, um famigerado postulado da filosofia existencialista de Sartre versava justamente isso: A existência precede a essência. Ou seja, nós primeiro existimos e tomamos nota dessa mesma existência para depois nos definirmos e preenchermos o existir com o ser (essên-[cia] : esse-[re] : o radical esse designa ser).
 
     O Ser de Luís depende de tal modo de Marina que, quando se torna impossível a aproximação entre os dois, as micronarrativas sufocam o fio principal da trama com retalhos de cenas. O pathos (paixão) de Luís pelo próprio objeto (Marina) que o compõe a essência, plano no drama, aniquila O Ser e a essência do personagem, deixando-lhe apenas o existir-aí. Afinal, o indivíduo passa a ser aquilo que deseja e ama, o qual não necessariamente possui. Ora, por tomar consciência da impossibilidade de possuir o objeto que elabora sua essência, Luís irrompe um processo gradual de aniquilação do Ser.

* * *

      O romance de Graciliano mostra-nos que não somos apenas o que temos, pensamos e sentimos, mas também o que desejamos. Luís não era o que tinha, pois seus vencimentos mal lho pagavam os cigarros, as bebidas e o aluguel. Luís não era o que pensava, pois só pensava no passado e quando encontrava o presente era para narrar Marina. Luís tampouco era o que sentia, pois além dos sentimentos ordinários da existência, sentia apenas Marina. Luís era, então, o que desejava: a própria Marina.
 
     Podemos ver o quanto isso tem respaldo em nossas vidas, e isso é um dos benefícios que a Literatura presta para a gente: projetar-nos para vermos nós mesmos de forma mais profunda.
      Por fim, somos todos um punhado de Luíses. Somos o que queremos.