Quando li Nietzsche
pela vez primeira e vi, pela boca de comentadores, que esse filósofo
teceu duras críticas à metafísica de Platão, resolvi buscar nas
fontes o que o velho grego da Alegoria da Caverna havia dito de tão
absurdo. Eis que me encontro com uma cópia de "A República"
em mãos. Não obstante, a minha primeira leitura desse clássico da
filosofia foi um desastre. A cada passagem em que Sócrates
discursava apaixonadamente sobre o universo da justiça, da pólis e
das formas eu identificava erros que não eram bem erros que eu identificava.
Explicando melhor, estava a ler Platão sobre os olhos de Nietzsche
de forma quase que forçada. Com esses preconceitos, terminei a
última página sem entender de fato o que Platão queria dizer no
livro inteiro.
A Alegoria da Caverna
é, deveras, uma das passagens mais reproduzidas d'A República
e, pior, mal reproduzida! Não me permitia compreender o que
significava realmente o Mundo das Formas e, descontextualizadamente,
fazia um juízo de valor sobre cada linha da obra com base na
interpretação contextualizada de Nietzsche. Esse é um dos pontos
onde muitos erram ao narrar o Mito da Caverna, quando querem
entendê-lo somente pelos olhos dos outros.
Já despido dos
preconceitos que as leituras atropeladas de Nietzsche me imputaram,
resolvi revisitar Platão. E que maravilha! Experimentei realmente o
"maravilhar" filosófico de Platão quando compreendi que
há muito mais nesse filósofo do que um grosseiro desprezo ao mundo
sensível em detrimento do mundo inteligível. Ora, depois eu descobri que grosseiro mesmo é só querer ficar boiando no sensível.
Não só n'A
República, mas em todos os diálogos platônicos, há uma
diversidade de assuntos tratados em um só texto. Podemos aprender,
com a ajuda de um bom professor, muito de Lógica em Platão; muito de
metafísica, muito de literatura e muito de estética. Ler Platão,
no Ensino Médio mesmo, nos ajudaria a entender, também, o que é uma teoria.
Ora, quantas vezes ouço a pergunta “para quê me serve tal
teoria?”. Platão nos ensina. Se uma árvore na caatinga é diversa
e ao mesmo tempo similar a uma árvore no cerrado, deve haver uma
árvore ideal, em algum lugar fora do sensível, a qual serve de
modelo para todas as árvores. Isso é, portanto, uma Forma (ou
Ideia, em uma tradução menos acurada). Teorizar é, então, operar
com as Formas através do intelecto. É identificar a Realidade.
Lendo Platão no Ensino Médio, evitaríamos chegar no primeiro semestre do
curso de Engenharia, por exemplo, e perguntarmos enfurecidos "para
quê vai me servir essa cadeira de cálculo na prática?". Ora,
mas com professores ganhando dez reais a hora/aula, como podemos
entender Platão? Melhor, com professores ganhando dez reais a
hora/aula, como podemos entender?