sexta-feira, 27 de junho de 2014

Essência aniquilada – O Ser em "Angústia"

      Angústia não é uma das obras mais conhecidas do ficcionista Graciliano Ramos, muito menos é uma das mais apresentadas pelos professores de Ensino Médio a seus alunos de Literatura. Por destoar do estilo característico que fez Graciliano ganhar o epíteto de “uma faca só lâmina” - dado por João Cabral -, podemos, de certa forma, entender o porquê de tão rica obra não ser tão bem apresentada no ensino básico como o é Vidas Secas, por exemplo.

      Enquanto que neste livro, podemos dizer dela “um conjunto de narrativas orgânicas, mas autônomas”, sentimos a presença do estilo tão autoral, tal como a prosa sóbria, pouco adornada de adjetivos e com objetividade de faca-só-lâmina, em Angústia encontramos o inverso. Não se acha nesse texto a linguagem objetiva e semi-referencial típica do autor. Vemo-nos, na verdade, diante de uma narrativa elaborada pela voz subjetiva de Luís da Silva, a qual distorce o cenário dado à própria lente personalíssima que aplica à descrição.

      Angústia, portanto, não pode representar um protótipo de obra graciliânica, uma vez que não apresenta as notas características para tal. Só que o que quero tratar nesses apontamentos não é a relação de Angústia com o conjunto da obra de Graciliano, e sim o que ela pode nos dizer respeito a nós mesmos como gente-no-mundo e como seres. Afinal, muito nos tem a dizer o romance sobre isso.

      A estória é narrada em primeira pessoa por Luís da Silva, herdeiro da decadente aristocracia rural pós-império. O fio narrativo não é linear. A trama primária (macronarrativa) puxa subnarrativas. A primeira esboça a medíocre vida de Luís como funcionário público em Maceió, a segunda, narrada de forma esparsa, transita entre a infância vivida na fazenda decadente da família e sua vida andarilha antes do emprego público. Enquanto a macronarrativa é traçada de forma relativamente linear, as micronarrativas são espalhadas na linha da trama a ponto de formar uma concha de retalhos que embaralha a estória contada (passado – pretérito perfeito) e as estórias lembradas (passado do passado – pretérito mais-que-perfeito). Além disso, as matérias e as cenas narradas são distorcidas pela própria subjetividade do narrador.
 
      O objeto que move a trama principal é Marina: filha dos vizinhos de Luís e mulher pela qual se apaixona. O objeto que move as tramas secundárias é o fracasso, ou (poderíamos dizer?) a falta de essência ao existir-aí de Luís. Ora, um famigerado postulado da filosofia existencialista de Sartre versava justamente isso: A existência precede a essência. Ou seja, nós primeiro existimos e tomamos nota dessa mesma existência para depois nos definirmos e preenchermos o existir com o ser (essên-[cia] : esse-[re] : o radical esse designa ser).
 
     O Ser de Luís depende de tal modo de Marina que, quando se torna impossível a aproximação entre os dois, as micronarrativas sufocam o fio principal da trama com retalhos de cenas. O pathos (paixão) de Luís pelo próprio objeto (Marina) que o compõe a essência, plano no drama, aniquila O Ser e a essência do personagem, deixando-lhe apenas o existir-aí. Afinal, o indivíduo passa a ser aquilo que deseja e ama, o qual não necessariamente possui. Ora, por tomar consciência da impossibilidade de possuir o objeto que elabora sua essência, Luís irrompe um processo gradual de aniquilação do Ser.

* * *

      O romance de Graciliano mostra-nos que não somos apenas o que temos, pensamos e sentimos, mas também o que desejamos. Luís não era o que tinha, pois seus vencimentos mal lho pagavam os cigarros, as bebidas e o aluguel. Luís não era o que pensava, pois só pensava no passado e quando encontrava o presente era para narrar Marina. Luís tampouco era o que sentia, pois além dos sentimentos ordinários da existência, sentia apenas Marina. Luís era, então, o que desejava: a própria Marina.
 
     Podemos ver o quanto isso tem respaldo em nossas vidas, e isso é um dos benefícios que a Literatura presta para a gente: projetar-nos para vermos nós mesmos de forma mais profunda.
      Por fim, somos todos um punhado de Luíses. Somos o que queremos.