Angústia
não é uma das obras mais conhecidas do ficcionista Graciliano
Ramos, muito menos é uma das mais apresentadas pelos professores de
Ensino Médio a seus alunos de Literatura. Por destoar do estilo
característico que fez Graciliano ganhar o epíteto de “uma faca
só lâmina” - dado por João Cabral -, podemos, de certa forma,
entender o porquê de tão rica obra não ser tão bem apresentada no
ensino básico como o é Vidas Secas, por exemplo.
Enquanto
que neste livro, podemos dizer dela “um conjunto de narrativas
orgânicas, mas autônomas”, sentimos a presença do estilo tão
autoral, tal como a prosa sóbria, pouco adornada de adjetivos e com objetividade de faca-só-lâmina, em Angústia encontramos o inverso.
Não se acha nesse texto a linguagem objetiva e semi-referencial
típica do autor. Vemo-nos, na verdade, diante de uma narrativa elaborada pela voz subjetiva de Luís da Silva, a qual distorce o cenário dado à própria
lente personalíssima que aplica à descrição.
Angústia,
portanto, não pode representar um protótipo de obra graciliânica,
uma vez que não apresenta as notas características para tal. Só
que o que quero tratar nesses apontamentos não é a relação de
Angústia com o
conjunto da obra de Graciliano, e sim o que ela pode nos dizer
respeito a nós mesmos como gente-no-mundo e como seres. Afinal, muito nos tem a dizer o romance sobre isso.
A
estória é narrada em primeira pessoa por Luís da Silva, herdeiro
da decadente aristocracia rural
pós-império. O fio narrativo não é linear. A trama
primária (macronarrativa) puxa subnarrativas. A primeira esboça a
medíocre vida de Luís como funcionário público em Maceió, a
segunda, narrada de forma esparsa, transita entre a infância vivida
na fazenda decadente da família e sua vida andarilha antes do emprego público.
Enquanto a macronarrativa é traçada de forma relativamente linear,
as micronarrativas são espalhadas na linha da trama a ponto de
formar uma concha de retalhos que embaralha a estória contada
(passado – pretérito perfeito) e as estórias lembradas (passado
do passado – pretérito mais-que-perfeito). Além disso, as
matérias e as cenas narradas são distorcidas pela própria
subjetividade do narrador.
O
objeto que move a trama principal é Marina: filha dos vizinhos de
Luís e mulher pela qual se apaixona. O objeto que move as tramas
secundárias é o fracasso, ou (poderíamos dizer?) a falta de
essência ao existir-aí de Luís. Ora, um famigerado postulado da
filosofia existencialista de Sartre versava justamente isso: A
existência precede a essência.
Ou seja, nós primeiro existimos e tomamos nota dessa mesma
existência para depois nos definirmos e preenchermos o existir com o
ser (essên-[cia] : esse-[re] : o radical esse designa ser).
O
Ser de Luís depende de tal modo de Marina que, quando se torna
impossível a aproximação entre os dois, as micronarrativas sufocam
o fio principal da trama com retalhos de cenas. O pathos (paixão) de
Luís pelo próprio objeto (Marina) que o compõe a essência, plano
no drama, aniquila O Ser e a essência do personagem, deixando-lhe
apenas o existir-aí. Afinal, o indivíduo passa a ser aquilo que
deseja e ama, o qual não necessariamente possui. Ora, por tomar
consciência da impossibilidade de possuir o objeto que elabora sua essência,
Luís irrompe um processo gradual de aniquilação do Ser.
*
* *
O
romance de Graciliano mostra-nos que não somos apenas o que temos,
pensamos e sentimos, mas também o que desejamos. Luís não era o
que tinha, pois seus vencimentos mal lho pagavam os cigarros, as bebidas
e o aluguel. Luís não era o que pensava, pois só pensava no passado
e quando encontrava o
presente era para narrar Marina. Luís tampouco era o que sentia,
pois além dos sentimentos ordinários da existência, sentia apenas
Marina. Luís era, então, o que desejava: a própria Marina.
Podemos ver o quanto isso tem respaldo em nossas vidas,
e isso é um dos benefícios que a Literatura presta para a gente:
projetar-nos para vermos nós mesmos de forma mais profunda.
Por
fim, somos todos um punhado de Luíses. Somos o que queremos.
OI Cássio, muito feliz por ver que vc também está escrevendo sobre Literatura. Adorei seu texto. Graciliano Ramos é um grande nome da nossa Literatura. Seu texto me deu muita vontade de conhecer a obra toda para descobrir no que esse livro destoa. Sua escrita é uma delícia...
ResponderExcluirMuito obrigado, Marilla. Graciliano Ramos é, de fato, um escritor muito perigoso, porque mostra o que é pesado na gente como ser.
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